ácido pra diluir você

Sabe aquele silêncio que você deixou quando a última gota de vodca caiu da garrafa? Sabe aquelas linhas cafonas que você escreveu na minha pele? Sabe todo aquele joguinho de palavras que você sempre evitou entrar? Joguei fora.
Todas aquelas lembranças foram embora no ralo, e agora espero não mais ter que drenar a dor - espero que ela não volte. Agora ando com o corpo blindado, foda-se o que posso perder com isso. Dores passadas já não me interessam mais. Se ainda acordo com febre de um sonho ruim, sei que um copo d'água ajuda a aliviar. Se ainda me apavoro por andar em certas ruas e estações de metrô, respiro fundo pra calma vir à tona. As cicatrizes são incuráveis, mas se preciso for eu as cubro com desenhos coloridos que me façam rir de mim mesma. Hoje, não me equilibro mais na corda bamba. A fumaça densa se dissipa a cada passo que dou para frente. Sigo te matando aos poucos na minha história.


ideias permanentes

um dia você vai sumir
ou entrar pela porta e tomar todos os segundos que ainda restam. Eu olho para o papel querendo ficar surda, mas a ideia volta toda vez que te escuto. Queria te matar com estilete, friamente, devagar. Eu faria em pedaços todaquele passado sem nitidez. Eu quero abrir um livro e não ouvir as suas ideias implantadas na minha cabeça.
um dia você vai sumir
Reflexoculto
o branco da folha me olha... dessa vez me convida sem suplicar por rimas perfeitas. Apenas sente falta dos rabiscos de outrora. Mas vai ficar pra outra hora.

do grito que não sai

Acho que to precisando gritar. Aquele grito que liberta, como quando grito na música “Pra Ser Sincero”, seja num show do EngHaw ou Pouca Vogal (que é a mesma coisa, só que diferente). Gritar, falar alto, blefar e dançar a noite toda com a mesma garrafa de cerveja na mão. Deixar o eu guardadinho pra viver – nem que seja numa única noite – minha vontade de gritar. Sorrir, suar, borrar a maquiagem, ficar molinha de sono (e de cerveja demais), beijar na boca, sentir-me poderosa. Nem que toda essa fantasia acabe ao amanhecer. A gente sabe que sempre acaba. Não me importo de ser mentira quando estou ciente disso.

Tem vezes que noites de fantasias são mais verdadeiras que dias coloridos. Sei bem, a dúvida é o preço da pureza, mas viver numa oscilação de esperanças é foda. Mas sem isso deve ser mais foda ainda.

que a noite caia,
de repente caia,
tão demente quanto um raio.
que a noite traga alívio imediato.

pausa o filme, por favor

poesia, quem sabe outro dia. por enquanto, aperto o pause e fico em silêncio. um dia volto, quiçá.


"com a coragem que a distância dá fica mais fácil"

 
Acho que me distanciei de você. Ainda não encontrei os motivos que saí pra procurar. Prefiro estar longe pra ser imparcial em relação a nós dois. Talvez seja covardia, um medo de te ver (será?), de ter certeza de que todas as minhas indagações estão corretas e que o mundo não acaba em 2012. Você sempre soube o que havia depois do abismo, foi você quem o construiu – eu simplesmente pulei para libertar nós dois. Caí inúmeras vezes, mas recuperei todos os ossos quebrados, olhos roxos e lágrimas de dor. Sim, ficaram cicatrizes grandes, feias e gordas – mas sem elas não me lembraria de tudo o que você me fez passar (você nem imagina o tão ruim que fiquei), todas as decepções, asco e vergonha de mim mesma por não poder esconder toda a dor que saía pelo sangue escorrendo pela pele. Tá, ainda não me orgulho do que fiz (e nunca vou me orgulhar), tem hora que da vontade de ir atrás de ti e gritar todas as merdas que entalaram na garganta, desfigurar seu rosto com um estilete, dar as costas e ir embora igual você fez. Prefiro amassar cada insulto e deixar passar a raiva – são dez anos espremendo as frutas d’agonia que é viver com você na memória, mais dez anos pra finalizar o serviço não vai fazer diferença pra mim. Não vou mentir, dói (não como antes, mas dói). Dói por rever as cenas e não entender como me deixei levar todas as três vezes que tentei finalizar olho no olho e nada causou efeito. Sei que essa é uma daquelas cartas que você jamais lerá até o fim – nem sequer passará pelo começo – mas não me importo. Escrevo pensando em ti e sei que algo vai causar no teu ser. Não te desejo nada de mau, nem de bom – não te desejo nada. Deixo apenas para ti o vazio em meu peito, a cratera que, talvez, será preenchida um dia.

Ela não assinou. Dobrou o papel e passou pela fresta da porta. Virou-se e partiu, para sempre.

do outro lado do espelho

Olhou no espelho e viu o rastro negro daquela lágrima que demorou cair. Tremia, temia o próximo ato. Atuava até dormindo e agora sentia na pele as consequências de cada personagem. Havia travado, nada sentia – coração anestesiado.
Sentia vontade de andar, correr, sumir. Vontade de sair de si. Era saudade de tempos, da facilidade de esconder-se em olhares. Agora, as personagens riam e faziam a atriz pagar por cada peça mal atuada, a artista da vida viva mentiras, alimentava-se de vazios, preenchia seu buraco com tragos e goles de melancolia e paixões mal resolvidas.
Agora ela olha o espelho e não se vê. Fecha os olhos e enxerga seu interior escuro e viscoso. Queria poder sentir algo. Frio, calor, felicidade, paixão, tesão, amor. Nada sentia além da lágrima borrando a maquiagem barata no rosto, olhou no espelho e se calou.

pensei dar-te meus pares de palavras...
                                                            mas hoje você não mereceu.